A tiracolo
O prazer de acompanhar
De acordo com o dicionário Michaelis, a expressão "A tiracolo", significa: "indo de um ombro para o lado oposto, na cintura ou debaixo do braço oposto a esse ombro; a boldrié."
Aqui em casa, no entanto, essa expressão tem um significado extra. Quando alguém sai para resolver um pepino na rua ou cumprir uma obrigação e acompanhamos pura e simplesmente pelo exercício da companhia, dizemos "vou também, a tiracolo". Isso significa: vou te acompanhar na sua consulta, no seu mercado, na sua ida ao Na Hora, na fila do banco ao meio dia, na loja da companhia telefônica aonde você planeja armar um barraco, etc.
Assim, quando queremos uma companhia, apenas pelo conforto de ter alguém com a gente, dizemos: "anima ir a tiracolo?", e isso significa: "não espero nada de você. Você não precisa dirigir, decidir nem resolver nada por mim, só queria sua presença, como um abraço. E depois, vamos ter um refresco juntos."
(Não é à toa que uma das definições do mesmo dicionário para a palavra "acompanhar" seja: "Realizar ou vivenciar as mesmas atividades ou situações, ou dividir os mesmos sentimentos".)
Fiquei pensando nisso quando vi outro dia aquele meme que dizia: "sim, eu vou contigo no dentista e depois vamos comer bolo na sua vó". Os comentários estavam repletos de gente que, como eu, AMAM isso! Esse tipo de programa aleatório em que podemos ficar só existindo, soltando alívios cômicos, pequenas piadocas e curiosidades. Também amo ter alguém que faça isso por mim quando eu tenho que resolver os inúmeros b.os que a vida adulta insiste em jogar nos nossos colos dia após dia.
Ultimamente temos conversado bastante sobre a dificuldade de fazer e manter amizades. A dificuldade de encontrar com quem amamos e de aprofundar relações com quem ainda não conhecemos tão bem. Em todos os casos, as dificuldades passam por bater agendas lotadas, encontrar um lugar que atenda todo mundo e torcer para que, depois de tudo marcado, nenhum imprevisto encontre a agenda de ninguém.
(quantas vezes já fui parar em restaurantes em que até a batata frita e a salada tinham leite animal ou carne e tive que me contentar com um suco de laranja só para poder findar a busca por um lugar que me atendesse também e pudesse só acabar a discussão e ter logo o encontro com as pessoas. Eu não me importo, quando saio pra ver alguém, meu objetivo é ver aquele alguém, o resto que vier é lucro. Quase sempre eu tenho uma marmita da Muju na bolsa, o que facilita meu desprendimento haha. Indico!)
Só para não perder o ponto central desse texto e começar a divagar em vias paralelas, algo muito natural pra mim, o que estivemos pensando é sobre a diferença da conexão que conseguimos nesses programas a tiracolo, que são geralmente espontâneos e rapidamente decididos/resolvidos, em comparação com esses encontros que levamos dias e dias nos grupos de whatsapp achando o cenário totalmente perfeito e cômodo para cada um dos envolvidos.
Sinto que os programas a tiracolo me conectam muito mais. Estamos quase vivendo uma aventura que passa por juntos enfrentarmos algo muito chato e tedioso com o esforço ativo de tornarmos aquilo algo interessante e depois sempre tem um final agradável, um bolo na casa da vó, um café numa lojinha que avistamos ali perto, uma pausa pra tomar um picolé vendo uma árvore bonita.
Enquanto os programas que visam a maior comodidade possível para todos, quando conseguem acontecer, acabam gerando alguém que se sentiu injustiçado e conversas mecânicas de atualização da vida sem muita profundidade. E esse é o cenário positivo, tá bem hahaha? Dependendo, você pode acabar desavisadamente em um torneio de quem é o mais bem sucedido: cada um dos integrantes da mesa contando seus maiores grandes sucessos. Eventualmente, um torneio de quem é o maior sofredor, onde a batalha será pesando os fardos da vida. Quase sempre, todos os envolvidos saem dessas rodas se sentindo tristes e insuficientes, o contrário do desejado.
O fato é: em nenhum desses cenários você vai sentir a possibilidade e a segurança de ser vulnerável e o mesmo vai acontecer com as pessoas em relação a você. E o que eu fico pensando é que talvez o enraizamento de amizades mais profundas dependa dessa segurança. Você não acha? Pensa na sua amizade mais profunda, em como ela começou e como se desenvolveu. A minha começou há 21 anos, duas míopes tentando ler "Canal de Suez". Não moramos mais na mesma cidade, mas eu enfrentaria uma fila do Na Hora com ela sem titubear e nossos chás virtuais são sempre deliciosos ao ponto que anoitece e não vemos.
Fico pensando se todo mundo tem uma amiga assim e não quer mais nenhuma ou se as pessoas só acham que o normal de amizade é isso: um torneio de sucessos e fracassos bem maquiados, sem conversas, sem compartilhar de si, sem cada um se conhecer de verdade. Eu sei que você conhece os sucessos e fracassos de quem você chama de amigo, mas você conhece a pessoa de verdade?
Pergunta difícil de se responder, né? Acho que por isso existe o ditado popular: "para conhecer bem uma pessoa, é preciso comer um quilo de sal juntos". Eu não sei se você cozinha, caso não cozinhe, fica a explicação do ditado: gastar um quilo inteiro de sal leva MUITO tempo, são dias e dias de café da manhã, almoço & janta hahaha. E talvez seja isso mesmo, para aprofundarmos relações, precisamos investir muito tempo.
Esse texto também não tem final e, como você pode notar, diferente dos outros, não tem referências além do meme e do ditado popular. A realidade é que tentei não ler muito sobre o tema enquanto adentro essa beira d'água turva das amizades em que não sei até onde "dá pé". Logo mais leio mais e compartilho de outras perspectivas. Ou, quem sabe, você pode compartilhar a sua :).


achei linda essa perspectiva!! muitas vezes a gente acha que manter uma amizade é difícil, que só aqueles encontros 100% planejados servem. mas é lindo o que pode florescer no espontâneo 🌷