Contrastes
Uma carta de amor pra Brasília
Brasília é uma cidade jovem. Apesar de termos nascido aqui, as referências que tivemos dos nossos pais e avós que vieram de outras cidades, abrem um leque enorme de encontro de culturas. Talvez essa seja uma das coisas que eu mais gosto em Brasília (e no Brasil).
A família do Mumu tem uma junção gastronomicamente deliciosa: Minas Gerais & Ceará. Não tinha como ele fugir do destino de fazer comida gostosa. A minha família tem a junção Rio de Janeiro & interior de São Paulo. Quando a gente se encontra, tudo se soma.
Essa junção impacta como a gente fala, o que a gente fala e deixa de falar, como a gente convive, o que a gente já nasce aprendendo a amar.
É difícil definir Brasília, não tem como dizer que ela é "isto" ou "aquilo", sempre depende. Em um país tão rico em culturas como é o nosso, um quadradinho onde todas se encontram se torna difícil de delimitar em certezas. Apesar da organização cartesiana de uma cidade planejada, de toda racionalidade de endereçar com números e projetar em eixos, Brasília é fluída. Ora muito, ora pouco.
Às vezes, na mesma hora, é muito para alguns e pouco para outros.
Cheia de contrastes, tudo parece ficar maior do que já é e nada parece caber em si. O cinza do concreto parece mais cinza junto às árvores e o amarelo dos ipês mais amarelo junto à imensidão azul do horizonte.
Não tem como definir em uma coisa só e nem acreditar que o que parece ser, pra sempre será. Toda hora muda, toda hora pulsa. O tempo todo tem gente chegando e gente indo embora.
Eu sempre fui apaixonada por Brasília, poderia listar infinitamente tudo que eu amo e até mesmo a tão temida seca estaria na lista. Estaria mesmo, porque eu amo com imensidão a primeira chuva depois dela e, sem ela, essa seria só mais uma chuva qualquer.
Do bioma em que estamos ao urbanismo da cidade e como eles se abraçam, tudo parece querer abrir espaço para o céu passar, para a gente se abrir, pra tudo crescer. Não tinha como eu não me apaixonar por urbanismo e trabalhar com isso até o meu limite.
Não tinha como esse amor morrer. Amor é como semente, mesmo quando a gente enterra, rebrota. E foi assim que eu migrei pro paisagismo, não tem como viver no cerrado sem morrer de amores por ele.
No ano que Brasília completou 66, a Muju completa 7. Não fosse Brasília, talvez a ideia da Muju não existisse. Não fosse Brasília, talvez a gente nem tivesse se conhecido. Aonde nascemos e vivemos e criamos não é mero pano de fundo, é elo inquebrável.
(Vale uma carta de aniversário 1 dia atrasada? É que ontem, enquanto vocês estavam de camelo no eixão, tivemos produção! E hoje, entregas em vários blocos, passando por várias tesourinhas, mergulhando no buraco do tatu que tinha até trânsito de baú, véi! Passamos pelos balões cheios de flores e é sempre tanta coisa bonita pra se olhar que tem até que tomar cuidado pro pardal não pegar.)

