Por que você cozinha?
(...ou paga por esse serviço?)
É para matar a fome e só quando está com fome? É para bater a meta dos nutrientes? É para manter o corpo funcionando?
Se fosse só para isso, para que cozinhar? Se fosse só para isso, tem um monte de alimentos que a natureza já entrega prontos ou que a indústria prepara e embala em saquinhos individuais. Não é só para isso. Cozinhar e comer vão muito além.
A forma como cozinhamos, comemos e nossa relação com a comida de forma geral é parte fundamental da nossa conexão com o mundo. Tanto a física, quanto a cultural, social, a forma como pertencemos e agregamos ou não.
Desde que começamos a aprofundar nossos estudos sobre comida, antes de sonharmos em ter a Muju, fomos nos maravilhando com o quanto ela é interdisciplinar! Justamente por isso, ela é raíz para grandes possibilidades de mudanças nas nossas vidas como um todo.
"Eu acho que comida, cultura, pessoas e paisagem são absolutamente inseparáveis."
- Anthony Bourdain
A comida e seus preparos transcendem o tempo e espaço, são conectores de gerações e mantém vivas culturas inteiras. Entender e conhecer os ingredientes é também estar conectado com a biodiversidade de onde se está. Saber nomear espécies, saber cultivar e manejar plantas.
"Cultivar o próprio jardim e colocar as mãos na terra mesmo em áreas urbanas pode nos ensinar um pouco sobre o trabalho na terra, o desperdício de alimentos e a importância de valorizar quem cultiva o alimento que comemos."
- Neide Rigo, Comida Comum.
Não é só o combustível da vida, do nosso corpo físico, é parte da nossa cultura, da nossa conexão com a terra e com a comunidade que nos rodeia. É celebração, fazendo parte dos marcos das nossas vidas: bolo com velas no topo, bem-casado, canjica, canja, café com pão de queijo. Cada uma dessas comidas evoca um momento, das celebrações ou grandes festas culturais ao momento em que estamos sendo cuidados e alguém nos prepara uma canja.
A comida é tão representativa que alguns sentimentos parecem abraçar pratos e nos fazer desejar aquele prato ao menor sinal daquele sentimento. Sempre que estou triste, desejo um prato de mingau de aveia quentinho. É o acalento. É o que recebemos de quem nos ama desde crianças e perdura para a vida como uma forma de amar.
"Comida saudável é aquela que respeita nossa cultura sem desprezar novos aprendizados, que possa ser produzida com menos impacto ambiental, que possa ser compartilhada, que seja biodiversa e que valorize quem produz."
- Neide Rigo, Comida comum.
Temos reparado cada vez mais gente com medo de comer e isso é assustador. O nutricionismo das tendências que rotulam cada hora um alimento (ou grupo alimentar) como bode expiatório para todas as mazelas do mundo, a ascensão dos discursos que nos adoeceram nos anos 2000 com padrões estéticos de ultra magreza, os malabarismos políticos para tornar ingredientes ou produtos alimentares "tendências mercadológicas" e a obsessão com tabelas nutricionais nos afastam cada vez mais da nossa própria cultura.
É muito importante não se deixar levar por esse papo. É muito importante que a gente siga teimando em conhecer nosso bioma, nossas frutas, nossas técnicas culinárias, nossas RAÍZES!! Estamos no país mais biodiverso do mundo, com uma das culinárias mais fascinantes e ricas. Não é possível que a gente vai trocar isso por pós insossos batidos com água, mãos cheias de comprimidos brilhantes e coloridos artificialmente de vitaminas e minerais e um enorme medo de comer uma comida de verdade.
Não teria outra forma de terminar isso, fiquem com o poema "Com unhas e dentes":
"Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca,
de tão doce,
não o esqueces."
- Luís Filipe Parrado, Entre a carne e o osso, ed. Língua morta
(Eu desejo que você teime em conhecer nossa cultura, biomas, técnicas culinárias, nossa história! Que você colha, preserve, armazene, fermente, cozinhe, reserve, sove, exercite verbos.
Que seu olhar siga curioso, seu coração siga aberto e seu ouvido possa escutar o que ele, em ritmo de batuque, te diz para te guiar. Viva e mantenha vivo e replante e rebrote.)

