Saber de cor
E salteado
Outro dia usei a expressão “saber de cor” e fui imediatamente invadida de curiosidade: Será que “de cor” tem alguma relação com coração?!
Fiquei um tempo olhando o teto listando tudo que “sei de cor e salteado”. O primeiro telefone fixo e endereço que tive, alguns celulares, várias receitas, um bocado de poemas e algumas informações extremamente aleatórias, como fórmulas do segundo ano (que no segundo ano eu não sabia).
Conforme a empolgação se dissipava, percebi que talvez não viesse de coração, devia vir de “decorado”, “saber decorado”. Mas... e se “decorado” também viesse de “coração”? Eu estava oficialmente obcecada, cansei de divagar e fui pesquisar. Tenho feito muito isso como passatempo, substituindo feeds infinitos por perseguir uma curiosidade, destacando cada gomo dela e me deliciando, como quem come um tangerina.
Conforme eu ia devorando a palavra "decorar", outros gomos iam surgindo. Escrevendo isso agora, lembrei disso:
"Segurar a palavra com as duas mãos amá-la até que respire."
– Catarina Nunes de Almeida e Maria Bernardes, Achamento, edição Do Lado Esquerdo
“Saber de cor”, realmente vem de “saber de coração”. Assim como “decorado”, "recordar", “coragem”, “concordar”, “discordar”, “cordial” e mais uma enorme quantidade de outras palavras que também tem sua construção baseada em referências ao coração. “Cordial” ainda tem um sentido extra no universo da gastronomia: “alimento ou bebida que estimula o coração”. Isso não é muito lindo?
Antigamente o coração era considerado a sede do conhecimento no corpo e daí vem todas essas palavras que o referenciam. Muito diferente de hoje em dia, em que associamos o conhecimento ao cérebro e à nossa cabeça, deixando para o coração apenas os sentimentos. Como se tudo fosse setorizado, uma cidade planejada.
Talvez por isso, hoje em dia exista uma expressão sinônima de “saber de cor” que vejo mais difundida nas conversas, o “saber de cabeça”, que é a mesma coisa, mas é totalmente diferente.
Espero nunca mais usar a expressão “saber de cabeça”, porque sinto que o que eu sei decorado eu sei de coração mesmo, por ter sido afetada, pelos sentimentos associados, independente da área de conhecimento.
Quando faço tabuada “de cor”, eu sinto o cheiro e a textura da minha pastinha azul do kumon e às vezes escuto o barulhinho do cronometro. Quando estou passando pela área central da cidade e sei “de cor” o número da Planta Registrada de cada lote, sinto o cheiro do mdf da baia em que eu trabalhava como urbanista.
Várias coisas que eu sei “de cor” eu não preciso mais saber. Várias coisas que eu queria saber “de cor”, eu ainda não consegui decorar. Talvez isso pra mim seja uma prova ainda maior de que o que eu guardo decorado, fica na gaveta do coração. Para entrar lá, tem que ter me afetado, no melhor sentido da palavra
Gosto como a construção das palavras nos ajuda a entender melhor o que sentimos e assim, consequentemente, conseguimos verbalizar melhor para nos fazermos entendidos. Se quando "recordamos" estamos "fazendo voltar ao coração", o que tem nos impedido de "recordarmos" de algo que tanto gostaríamos de "saber de cor"?
Lembrei disso aqui:
"Arrumar a gaveta como quem arruma o coração. Deixando sempre espaço para uma certa desordem."
– Michaela Schmaedel, Coração Cansado, edição Penalux
Talvez a gente não tenha tanto controle sobre o que entra e sai da gaveta e a vida vai acontecendo e bagunçando ela. Mas, agora que sabemos que recordar é "trazer de volta ao coração" e que "saber de cor" é ter algo guardado na gaveta dele, não dá vontade de escolher melhor essa curadoria? Fazer uma limpa?
(Esse texto não tem fim. Quase nunca os textos por aqui tem. Tudo nasceu dessas conversas que brotaram a partir da palavra "decorado" e que viraram até bolo de família entrando no cardápio, uma tentativa de melhorar a curadoria do que sei "de cor". Se é pra guardar algo, que sejam as receitas de bolo.)
Ps.: Experimentem o bolo de aipim que está no cardápio, inspirado na receita da minha bisavó Dulce, receita que agora… sei de cor e salteado!


uaaaaaaaau muito muito lindo! não sabia que tantas palavras falavam sobre o coração! ❤️