Saltar aos olhos
colecionando pontos de vista
Trabalhar no ramo da restauração e da hospitalidade requer muito repertório. Sem investir tempo criando repertório próprio é muito fácil cair em duas armadilhas: seguir modelos preexistentes que nem sempre vão fazer sentido para a sua realidade ou, talvez ainda pior, seguir as tendências, que cada dia passam mais rápido e levam junto com elas todo seu potencial de criar algo autêntico e que tenha a sua visão.
Tem um tempo que quero escrever sobre isso porque repertório, na minha humilde opinião, é o que deixa as pessoas (e marcas) interessantes e ninguém nos ensina a criar ele. O que tenho visto sendo ensinado geralmente parte de pesquisas no mesmo nicho em que você está criando: "quer criar uma cadeira? Faça uma pasta com fotos das suas cadeiras preferidas e isso deve ter ajudar."
Resultado: você vai acabar copiando, ainda que subconscientemente, ainda que não querendo, alguma daquelas cadeiras. É lógico que é importante você olhar outras cadeiras, mas talvez sua maior referência venha do formato de uma nuvem, de um sapato que vc viu passando na rua e parecia tão confortável ou de uma árvore do cerrado que pareceu crescer formando propositalmente um banco.
É por isso que no caderno que eu uso todo dia eu deixei anotado à vista como um lembrete essa reflexão da Dorothy Parker, para me lembrar de enxergar de verdade as coisas quando as olho. E o que eu enxergo e sinto, anoto.
"Criatividade é uma mente selvagem e um olho disciplinado."
– Dorothy Parker
Já comecei vários textos pensando “é hoje!”, mas quando vejo, já divaguei em outro tema, acontece.
Acontece cada vez mais conforme você vai aumentando conscientemente o seu repertório, inclusive. Uma ideia puxa a outra e fica inevitável...... Recordar! Lembram do texto anterior, né? Recordar é outra daquelas palavras que estruturalmente remetem ao coração, literalmente “trazer de volta ao coração”. Quanto mais vamos povoando o coração, mais recordações vamos tendo, inevitavelmente.
Tudo que sei sobre construção consciente de repertório eu aprendi de forma emocional observando pessoas que admiro e de forma metodológica nas faculdades de Design de Moda e de Arquitetura e Urbanismo. Batendo no liquidificador tudo isso, criei meu sistema,
Acredito que nosso olhar vai como imã ao que mais nos importa e uma coleção dessas "importâncias" é o que faz o nosso repertório brilhar.
(Lembrei de quando o Djavan canta em “Açaí” o trecho “zum de besouro, um imã”, fazendo referência ao som que faz você parar tudo e prestar atenção, olhos atentos tentando encontrar de onde ele vem. É assim, com olhos atentos pra enxergar de onde vem o "zum" que achamos as ideias mais legais.)
Estamos entrando em um areia movediça, acabei de usar uma das minhas palavras xodó e agora talvez esse texto vire uma declaração de amor para a palavra “importa”. Na verdade, a expressão “se importar”, que significa “levar pra dentro de si”. Não é uma imagem belíssima de se imaginar? Tente pensar nas pessoas com as quais você se importa e você levando elas pra dentro de si. (Me imagino abrindo uma portinha no meu coração e guardando as pessoas dentro dele. Assim que a porta se abre, uma infinidade de cachorros que amo está lá ansiosa pra receber o que vou guardar junto agora.)
Esse é nosso método: viver a vida observando o que atrai o nosso olhar e guardando esses elementos em fotos, vídeos, anotações, ou áudios. Gosto de chamar de “uma coleção de importâncias”. Em uma parte do meu caderno, tenho frases anotadas a mão que vão desde trechos de músicas ou livros à coisas que ouvi na rua e achei bonitas, como quando minha amiga Beatriz me disse que eu era “uma cumbuca de sopinha de abóbora” e eu me senti no topo do mundo, um dos melhores elogios que eu já ouvi, então agreguei ao meu... Repertório!
Isso vai pra tudo. Sabe as cores dos rótulos dos nossos molhos? Fotografamos os ingredientes, pegamos com a lupa deslizando pra lá e pra cá as cores que mais nos saltavam aos olhos e montamos as paletas de cores assim. Cada um tem cores diferentes. Justo! Não é?! Cada um tem raízes diferentes e a natureza nunca é monocromática.
Depois de criar esse repertório, na hora de aplicarmos, usamos outra palavra que me encanta: consideramos. Às vezes, “ter consideração” é usado como sinônimo de “se importar”. Na minha visão, são coisas distintas, ambas essenciais se você quer ser uma pessoa hospitaleira e se quer desenvolver criatividade e repertório. Vamos passar pela areia movediça de novo, segura o fôlego.
“Considerar” vem de “con” (significando junto) e “sidus” (significando estrela ou astros), uma palavra originalmente ligada às navegações (se guiar utilizando as estrelas para se encontrar) e à astrologia (observar a posição dos astros antes de tomar decisões). Hoje em dia, a palavra “considerar” pode ser usada para olhar com atenção, ponderar sobre algo, ter determinada opinião, admirar alguém ou... se importar.
Pra mim, não são sinônimos e a construção das palavras me reafirma meu achismo. “se importar” está dentro de si e “ter consideração” está nas estrelas. Poesia à parte, desde que comecei a trabalhar nesse ramo, passei a me policiar para ter consideração com absolutamente tudo e todos ao meu redor, algo que eu já tinha amplo repertório de observação, meus pais são pessoas extremamente hospitaleiras de forma natural e genuína.
Considerar, pra mim, é ter em mente os outros enquanto vivo a vida. E quando digo “os outros”, falo de quem eu amo, de quem eu não amo e até pessoas que nem sei quem são nem nunca vou ver. Como por exemplo quando você vai ao banheiro na rua e ao sair, deixa ele limpo e seco para que a próxima pessoa tenha uma boa experiência e fique feliz. Ou quando você planta flores pura e simplesmente para agradar o beija-flor e convidar a abelha.
"Um dos trabalhos da vida é tapar buracos na estrada para aqueles que o sucedam encontrem terrenos mais lisos"
– Gilberto Gil
Para considerar, você não precisa se relacionar, nem saber quem é, nem necessariamente estar perto para lembrar que existe. Como as estrelas no céu, sempre lá, mesmo quando não estão. E nós, nos guiando pelas luzes. Eu não sei quem vai usar o banheiro depois de mim na rua, não conheço todos os animais que visitam o jardim ~só alguns hahaha~, mas isso não me impede de considerar que eles podem existir e eu posso fazer algo legal por eles. Pra mim, considerar não é condicionado à gostar ou amar, é obrigação de viver em sociedade.
(Passamos pela segunda areia movediça, juro que foi a última, calma que vou amarrar tudo agora!)
Criar algo que te importe, baseado no que te salta aos olhos, considerando quem vai consumir aquilo e em qual contexto. Essa é a fórmula. É assim que vivemos há 6 anos e 11 meses. Essa mesma fórmula é o que me fez mudar minha visão de mundo, antes um tanto pessimista, para um esperançar consciente que tenta correr atrás da utopia lá no horizonte.
(Sei que não ficou muito "10 passos para criar seu repertório e desenvolver autenticidade", como seria a forma mais eficiente de falar sobre isso hahaha. Mas é que eu realmente acho que enquanto você estiver buscando eficiência em tudo o tempo todo, o zum do besouro vai passar e seu cancelamento de ruídos para o aumento de 60% da produtividade vai te privar de viver. Solta essa mandíbula, relaxa um pouco, dá uma reboladinha até a boca rebolar rindo também. Aí as ideias boas vão querer se juntar.)

