Será que compensa?
Depende do ponto de vista
Temos três pés de café, eles foram plantados de sementes pelo meu pai e ainda não são adultos, então, a produção deles ainda não é altíssima.
Eu brinco que é uma produção pequena demais para comprar aparatos que facilitem o processamento, mas grande demais para desperdiçar sem fazer nada. Porém, esse é meu ponto de vista hoje em dia, nem sempre foi assim. O que me lembra desse trecho:
“A mente é um espelho flexível: ajuste-o para ver o mundo melhor.”
- Amit Ray
A cada ano que passa, a produção aumenta. Ano passado, depois de todo processamento manual que fizemos, tivemos perto de 400g de pó de café, uns 12 bules mais ou menos.
O processo manual é assim: primeiro as colheitas, só dos frutos já maduros, que são higienizados e deixados de molho para amolecer a polpa. Depois, manualmente tiramos semente por semente, lavamos, secamos esse grão verde do café por alguns dias e, só então, torramos no forno (ou na pipoqueira, o que gerou resultados melhores, mas já nos custou uma pipoqueira ~fuen fuen fuen).
E, bom, é aí que vem a parte mais difícil do processo. Ainda tem um nível de “casquinha” pra ser quebrada e agora os grãos estão ásperos, o que gera uma dificuldade/desconforto extra. Finalmente, depois dessa etapa, levamos os grãos para o moedor e podemos passar um café.
São dias de trabalho manual em troca desses doze bules por ano. Essas xícaras rendidas podem não ser o café mais chique e premiado do mundo, pode não ter a torra perfeita ou as melhores notas, mas pra gente, o processo faz ele ficar extremamente valioso. (Se você já nos visitou e bebeu alguma dessas xícaras, foi uma declaração de amor hahaha.)
Qual o ponto desse texto, afinal?!
Toda vez que postamos esse processo, alguém brinca com o “cê é loko, não compensa” ou questiona o porquê de não investirmos num maquinário pra profissionalizar isso.
Realmente, olhando pela ~lógica~, não compensa. Deve ser por isso que vemos tantos pés de café na rua dando frutos e os frutos secando e caindo sem que haja interesse de ninguém. Nos nossos primeiros anos aqui também foi assim. Acontece que tudo depende do ponto de vista.
Às vezes, o que compensa uma atividade não é o fim em si, mas o caminho até ele. É assim com o café daqui, o que compensa esse trabalho é fazer todas essas etapas como passatempo, ouvindo música, papeando, contemplando os cheiros, texturas, estando presente, sem pressa. Sabe?!?
Escrevendo isso, me lembrei da minha cena preferida de um dos meus filmes preferidos do Studio Ghibli, “O serviço de entregas da Kiki”, quando a Kiki acompanha duas senhoras preparando um torta para o aniversário da neta de uma delas. Elas tem um grande trabalho num tempo muito corrido, almejando o momento em que a torta vai chegar pra menina presenteada. A longa cena termina com a Kiki entregando a torta, esperando que o ápice da experiência esteja ali, no produto final, no desfecho, na menina se alegrando com a belíssima torta que a avó, com tanto cuidado, fez e enviou a tempo.
A menina pega a torta, faz pouco caso com cara de decepção, responde para alguém dentro de casa que é “só mais uma das tortas da avó” e bate a porta na cara da Kiki. (Juro, que ódio!)
A mensagem que ficou pra mim é que, às vezes, o ápice do que fazemos não está no desfecho, mas no caminho. Enquanto a torta estava sendo feita, Kiki teve conversas e momentos valiosos com aquelas senhoras e isso... Valeu :).
“A verdadeira viagem de descoberta não consiste em procurar novas paisagens, mas em ter novos olhos.”
- Marcel Proust
(Espero que você, mesmo nesse mundo que parece só validar o que dá retorno financeiro, ou que seja conveniente, consiga encontrar passatempos que podem parecer não ter propósito nenhum, mas que estranhamente valham o tempo passado.)

