Tudo que poderíamos
...se pudéssemos
É difícil saber que estamos sendo vistos enquanto estamos tentando alcançar um sonho ou objetivo. Ao mesmo tempo que a maioria das pessoas ao nosso redor não vai ter tempo, disposição ou sequer interesse em observar, é inevitável ser visto por alguém que vai dizer variáveis de “Ah, se fosse eu, já teria feito (inclua ideia milionária aqui) e estaria muito melhor”.
Isso me lembra meu trecho favorito do “Tudo é rio”, da Carla madeira:
“Dalva poderia tantas coisas se pudesse. Mas só pôde o que fez. Quem vê de fora faz arranjos melhores, mas é dentro, bem no lugar que a gente não vê, que o não dar conta ocupa tudo.”
A realidade é que na vida a gente faz o que dá conta, no tempo que consegue. Tentar já é se colocar totalmente vulnerável frente a todos, mas também é a porta para estar conectado a uma vida que te faça sentido. Agora, uma vida que faça sentido é meio que ir contra o fluxo, não acha?
Estamos sendo cada vez mais empurrados para um ideal de vida pautado em eficiência e conveniência. Fazer tudo da forma mais fácil e rápida possível, sem muito questionamento.
Isso é assustador, parte da nossa cultura vai morrendo com isso. Se ninguém mais vai ter paciência de colher o milho, limpar as folhas, ralar a espiga, fazer pamonha, modelar embrulhado feito presente, não tem mais pamonha (GRAVE!!). A indústria vai certamente bolar um “preparado alimentício sabor pamonha” e, aos poucos, você vai esquecer o sabor da pamonha da sua vó e achar a massa insossa ultraprocessada é comida e é cultura.
Essa conveniência de ter tudo o tempo todo na palma da mão nos desconecta do tempo, nos faz acreditar que morango nasce em todos os países o ano inteiro, que tudo é instantâneo e que um pesto deveria durar anos na prateleira (ainda que aceitemos que um celular custe o preço de uma moto e dure 2 anos por obsolescência programada).
Essa conveniência nos desconecta tanto do tempo e da natureza humana, que sinto que estamos cada vez mais impacientes e intolerantes e estarmos cada vez mais impacientes e intolerantes nos deixa cada vez mais... sozinhos.
O que você tem feito para exercitar a sua paciência? Eu digo de forma prática! A terapia vai te dar ferramentas, conforme você vai fazendo terapia, mais ferramentas vão sendo adicionadas à sua caixinha. Isso vai evitar que você precise parafusar uma delicada madeira usando um martelo de carne. Mas, e a prática? Se sua vida está toda otimizada para o menor ruído possível e para você nunca ter que elaborar ou fazer nada, com as próprias mãos, aonde você vai exercitar a frustração, a paciência, a resiliência de fracassar e tentar de novo, a vergonha de ser visto durante todo esse processo embaraçoso?
Bom... vai sobrar para as suas relações, os outros seres humanos ao seu redor serão os únicos ruídos que você AINDA não pode eliminar completamente. Aos poucos, você vai dizer coisas como “prefiro ser atendido por um bot do que ter que falar com outra pessoa” e sua única prática de paciência e tolerância vai ser com outras pessoas que estão fazendo o mesmo. O resultado dessa soma é quase sempre a treta hahahaha.
Precisamos ter tempo e espaço para treinarmos nossas habilidades em lidarmos com os nossos sentimentos em uma solitude que vai viabilizar que não terminemos solitários. Você tem alguma atividade assim na sua vida?
Eu tenho algumas sugestões: Plantar uma horta em vasos na sua janela, fazer tofu (ou qualquer receita que te renda várias etapas de trabalho, tipo pamonha) ou tentar uma manualidade (pintura, costura, cerâmica, etc). Faça o exercício de tentar sem ficar o tempo todo no google se policiando e corrigindo, aprenda errando, isso fortalece o músculo da paciência, faz a gente perder a vergonha de experimentar e nos deixa mais resilientes à frustração.
Não vai ser fácil e não vai ser no primeiro dia nem no primeiro mês que você vai ficar bom naquilo, mas são justamente essas “coisas difíceis”, as que nos demandam atenção, presença, esforço, que ensinam as melhores lições, nos conectando com a vida.
(Todo esse papo surgiu das inúmeras e desconfortáveis vezes que, durante esses 6 anos ~ quase 7, de Muju, sonhamos e tentamos em público, e nos sentimos meio Dalva. Obrigada por quem está sonhando com a gente, tendo companhia fica muito mais fácil.)


pra mim essa atividade que me conecta e me desacelera é a natação. no início pensei que seria incômodo, ter que me trocar antes e depois da aula, me deslocar até lá… mas quando vi que era um bom jeito de exercitar a paciência não pensei mais duas vezes. algumas coisas só acontecem com um pouco de fricção, e quem se incomoda com tudo acaba perdendo as melhores coisas da vida, aquelas que só aparecem quando a gente deixa pra trás a mania de querer controlar tudo :)
Ah, que texto maravilhoso, quanta coisa foi remexida aqui dentro. "A realidade é que na vida a gente faz o que dá conta, no tempo que consegue. Tentar já é se colocar totalmente vulnerável frente a todos, mas também é a porta para estar conectado a uma vida que te faça sentido. Agora, uma vida que faça sentido é meio que ir contra o fluxo, não acha?" Obrigada por compartilhar!